Litoral do Paraná
A costa brasileira apresenta cerca de oito mil quilômetros de extensão e é constituída por várias regiões distintas, com diferentes características oceanográficas, climáticas e de potencialidade pesqueira. No caso das regiões Sudeste e Sul, a convergência subtropical das correntes do Brasil e das Malvinas favorece o desenvolvimento de populações de peixes, sendo o seu deslocamento norte-sul-norte responsável por oscilações espaciais e sazonais na distribuição desses organismos. As capturas obtidas em estuários, áreas costeiras, plataforma continental e zona oceânica nessas regiões representam boa parcela da produção pesqueira marinha nacional.
O litoral do Paraná é o segundo menor em extensão no País, com cerca de 100 km e uma área aproximada de 6.600 quilômetros quadrados. A costa paranaense abriga o Complexo Estuarino das baías de Paranaguá e de Guaratuba, dois grandes estuários que funcionam como zonas de criação e alimentação de inúmeros organismos, incluindo peixes de valor comercial. A água doce descarregada pelos rios transporta grande quantidade de nutrientes para esses estuários, criando condições importantes para o desenvolvimento da biota.
O Complexo Estuarino da Baía de Paranaguá, considerado o maior estuário do sul do Brasil, e a Baía de Guaratuba, apresentam uma grande diversidade de ambientes, incluindo canais de maré, extensas formações de manguezais, praias arenosas e costões rochosos. Esses estuários são importantes refúgios de muitas espécies de peixes e funcionam como áreas de crescimento inicial e proteção contra predadores.
Além das grandes áreas estuarinas, a costa paranaense possui uma plataforma continental extensa e rasa, a qual apresenta alta disponibilidade alimentar e proteção para recém-nascidos e juvenis, podendo ser considerada como área de parto e berçário para algumas espécies de tubarões e raias. Fêmeas adultas dos tubarões martelo (Sphyrna lewini), galha-preta (Carcharhinus limbatus) e cabeça-chata (C. obscurus) se aproximam da costa durante a primavera e verão para dar a luz aos seus filhotes, os quais permanecem nessa região durante os primeiros meses de vida (dezembro a março). Juvenis de tubarão-martelo (S.zygaena) são capturados durante o inverno e começo da primavera, enquanto que juvenis de tubarão-tigre são mais frequentes na primavera. Já o cação-rola-rola (Rhizoprionodon lalandii) apresenta todo o ciclo de vida em áreas costeiras, onde indivíduos recém-nascidos, juvenis e adultos podem ser encontrados em diversas épocas do ano.
Pouco se sabe sobre o uso da costa paranaense como área de berçário para raias. Entretanto, fortes registros consistentes indicam o uso dessa área por recém-nascidos e juvenis das espécies de raias viola (Rhinobatos percellens), tuiuiú (Zapteryx brevirostris), manteiga (Dasyatis spp.) e cachorro (Rhinoptera spp.). Estudos estão sendo realizados para comprovar essa hipótese, buscando informações sobre os padrões reprodutivos das diversas espécies que ocorrem nessa região.
A identificação e a caracterização de áreas de berçários de elasmobrânquios estão entre as ações prioritárias de pesquisa quando se deseja subsidiar planos de manejo e conservação desse grupo.